Champalimaud: Quando o Capital se Transforma em Poder Intelectual

Champalimaud: Quando o Capital se Transforma em Poder Intelectual

A fundação que converteu uma fortuna industrial em influência científica global


Em 2004, um homem de 86 anos morreu em Lisboa deixando instruções precisas sobre como perpetuar o seu nome. Não através de herdeiros no poder. Não através de empresas. Através de uma fundação científica que nenhum familiar poderia tocar. Vinte anos depois, o Centro Champalimaud para o Desconhecido é a 11.ª instituição de neurociência mais citada do mundo. O que parece filantropia é, na verdade, uma das operações de conversão de capital mais sofisticadas da história portuguesa.

Os verdadeiros donos não fazem barulho. Controlam estruturas.
Retrato de António Champalimaud, Júlio Pomar, Centro Champalimaud, Lisboa 2004

O Testamento Como Arquitectura de Poder

António de Sommer Champalimaud construiu a sua fortuna durante o Estado Novo. Cimentos, siderurgia, banca, seguros. Em 1974, possuía a sétima maior fortuna da Europa. Em 1975, foi nacionalizado. Exilou-se no Brasil. Reconstruiu tudo. Nos anos 90, regressou a Portugal através das privatizações de Cavaco Silva. Em 1999, vendeu o grupo financeiro ao Santander por 301 milhões de contos. Morreu com uma fortuna estimada entre 2 e 2,5 mil milhões de euros.

O testamento surpreendeu a família. Cerca de 500 milhões de euros não iriam para os herdeiros. Iriam para uma fundação dedicada à investigação biomédica. Mais importante: nenhum membro da família teria assento na administração. A presidente seria Leonor Beleza, ex-ministra da Saúde, com quem Champalimaud se tinha reunido presencialmente apenas uma vez.

O filho Luís confirmou anos depois: o pai discutiu consigo cem hipóteses de sucessão. Nenhuma incluía a solução que acabou por adoptar. António Champalimaud tinha visto o que acontecera com a herança de Calouste Gulbenkian. Não queria disputas. Não queria que a fundação se tornasse um instrumento de poder familiar. Queria algo mais duradouro: um monumento à sua memória, gerido por profissionais, blindado contra os seus próprios descendentes.

Leonor Beleza

A Arquitectura do Controlo

A escolha de Leonor Beleza não foi acidental. Jurista, ex-ministra, vice-presidente da Assembleia da República, fundadora do PSD. Uma figura com capital político suficiente para gerir uma instituição sem depender de ninguém. Uma figura que Champalimaud tinha observado de longe, admirando a sua determinação, inteligência e coragem. Em 2025, Leonor Beleza está na lista das 50 mulheres mais poderosas de Portugal da Forbes. Não pelo dinheiro que gere. Pela influência que exerce.

A estrutura de governação da fundação é deliberadamente opaca para o exterior mas cristalina na sua lógica interna. Um Conselho de Administração. Um Conselho Geral que incluiu figuras como Mary Robinson e Jacques Delors. Um Comité Científico com curadores como António Damásio. E uma presidente vitalícia, escolhida pelo próprio fundador, que responde perante a memória de um homem morto e mais ninguém.

Daniel Proença de Carvalho, advogado de Champalimaud desde 1968, ajudou a desenhar esta estrutura. Conhecia o empresário há 36 anos quando o testamento foi redigido. É o tipo de confiança que não se compra. Constrói-se ao longo de décadas. E permite criar instituições que sobrevivem aos seus fundadores.

Champalimaud Centre for the Unknown

A Conversão: De Cimento a Neurónios

O Centro Champalimaud para o Desconhecido foi inaugurado a 5 de Outubro de 2010, no aniversário da implantação da República. A data não foi coincidência. O edifício foi projectado por Charles Correa, o arquitecto indiano que tinha desenhado o centro de investigação cerebral do MIT. O orçamento ultrapassou os 100 milhões de euros. A localização, junto à Torre de Belém, de onde os navegadores partiram para o desconhecido, foi escolhida com deliberação simbólica.

Correa declarou na inauguração: Este projecto usa os mais altos níveis de ciência e medicina contemporâneas para ajudar pessoas com problemas reais. E para albergar estas actividades de ponta, tentámos criar uma peça de arquitectura. Arquitectura como Escultura. Arquitectura como Beleza. Beleza como terapia. É uma declaração que resume a ambição: não apenas tratar doenças, mas criar um monumento.

A fundação escolheu focar-se em duas áreas: neurociência e oncologia. Mais tarde, acrescentou um programa de combate à cegueira nos países em desenvolvimento. São escolhas estratégicas. O cancro afecta todos, ricos e pobres. A neurociência é a fronteira final da medicina. A cegueira nos países pobres é um problema que os governos ocidentais ignoram mas que confere legitimidade moral global.

Os Números do Poder

500 milhões € — Dotação inicial da fundação (2004)
100 milhões € — Custo do Centro Champalimaud para o Desconhecido
50 milhões € — Doação da família Botton (Danone) para o Centro do Cancro do Pâncreas (2021)
50 milhões € — Doação do Grupo Würth para investigação do cancro do pâncreas (2023-2033)
1 milhão € — Valor anual do Prémio António Champalimaud de Visão (o maior do mundo na área)

11.ª posição — Ranking global em neurociência (Nature Index, instituições sem fins lucrativos)
5.ª posição — Ranking europeu em neurociência (Nature Index)
1.º lugar — Melhor local para trabalhar fora dos EUA (The Scientist, 2012)

O Prémio Como Instrumento Diplomático

O Prémio António Champalimaud de Visão foi lançado em 2006, antes sequer de o centro estar construído. A primeira cerimónia decorreu no Palácio Presidencial de Nova Deli, com o Presidente da Índia Abdul Kalam a chamar-lhe o Nobel da Visão. Uma instituição que ainda não existia fisicamente já era reconhecida internacionalmente.

O prémio vale um milhão de euros por ano. É o maior do mundo na área da visão. Em anos pares, distingue investigação científica. Em anos ímpares, reconhece trabalho de campo contra a cegueira nos países em desenvolvimento. Os laureados incluem sistemas de saúde ocular na Índia, fundações no Nepal, investigadores de Harvard e do MIT. A lista de laureados é um mapa de influência global.

Em 2025, o prémio foi atribuído a três organizações: a Fred Hollows Foundation (que restaurou a visão a mais de 3 milhões de pessoas), a Lions Clubs International Foundation (544 milhões de pessoas assistidas) e a International Agency for the Prevention of Blindness. São organizações que operam em dezenas de países. Ao associar-se a elas, a Fundação Champalimaud projecta a sua influência muito além de Lisboa.

A Atracção de Capital Estrangeiro

Em 2021, a família Botton — herdeiros da Danone, judeus sefarditas de origem espanhola — doou 50 milhões de euros para construir o Centro Botton-Champalimaud para o Cancro do Pâncreas. Foi a primeira vez que uma família estrangeira confiou um montante desta magnitude a uma instituição filantrópica portuguesa.

Botton-Champalimaud Pancreatic Cancer Centre

Em 2023, o Grupo Würth, multinacional alemã, comprometeu-se com mais 50 milhões ao longo de dez anos para a mesma área de investigação. A presidente Leonor Beleza notou: É preciso muito dinheiro para fazer investigação que produza efeitos nas áreas que ainda são desconhecidas. A capacidade de atrair capital estrangeiro é um indicador de credibilidade institucional. Também é um indicador de soft power.

A fundação participa agora no Ocean Campus, um projecto de 300 milhões de euros junto ao Porto de Lisboa, em parceria com a Fundação Gulbenkian. Vai construir um centro avançado de inteligência artificial e uma incubadora científica. Os dois maiores patrimónios filantrópicos portugueses — ambos criados por industriais do século XX, ambos sem descendentes na gestão — operam agora lado a lado.

O Paradoxo da Reputação

António Champalimaud foi um homem controverso. Construiu a sua fortuna sob o Estado Novo, beneficiando de protecções e monopólios. Fugiu de Portugal em 1969 com um mandado de captura, acusado de irregularidades na herança do tio Henrique Sommer. Foi nacionalizado em 1975, sob suspeita de drenar fundos para o estrangeiro. Vendeu o grupo financeiro aos espanhóis em 1999, num negócio que muitos portugueses consideraram traição.

A fundação apagou esta história. Ou melhor: converteu-a. O industrial que tinha sido símbolo do capitalismo autoritário tornou-se, postumamente, patrono da ciência portuguesa. O homem que vendeu bancos aos espanhóis deixou um legado que atrai capital alemão e espanhol para Portugal. O empresário que fugiu do país é agora lembrado pelo edifício junto à Torre de Belém.

Jaime Nogueira Pinto, biógrafo de Champalimaud, conta que ouviu uma vez um sacerdote dizer que os pecadores deixavam sempre grandes legados à Igreja. Champalimaud não era religioso. Mas compreendeu o mecanismo. A filantropia não é caridade. É arquitectura de reputação.

O Que Resta

A Fundação Champalimaud tem hoje mais de 250 cientistas. Publica nas melhores revistas do mundo. Trata doentes de 38 países. Atribui o maior prémio mundial na área da visão. Está a construir um centro de inteligência artificial. A presidente, aos 77 anos, é simultaneamente vice-presidente do PSD e membro do Conselho de Estado.

Os herdeiros de Champalimaud receberam cerca de 200 milhões de euros cada. Gerem os seus patrimónios em silêncio. Alguns investem em imobiliário. Outros em participações financeiras. Nenhum tem o poder simbólico da fundação que não podem controlar.

António Champalimaud morreu de cancro. A fundação que criou trata cancro. Há uma simetria perturbadora nesta escolha. Mas também há cálculo. O cancro é democrático: afecta ricos e pobres. Financiar investigação oncológica é o tipo de filantropia que ninguém pode criticar. É também o tipo de filantropia que garante gratidão eterna.

Champalimaud Foundation Torre de Belém sunset

O Centro Champalimaud para o Desconhecido foi construído no exacto ponto de onde os navegadores portugueses partiram há cinco séculos. Champalimaud não viveu para o ver. Mas compreendeu que os verdadeiros monumentos não são os edifícios. São as instituições que os ocupam. E as instituições que sobrevivem são aquelas que ninguém controla — nem mesmo quem as criou.