A Corrida aos 50 Mil Milhões. O Que Significa para Portugal a Mega-Aposta da Oracle na Cloud

A Corrida aos 50 Mil Milhões. O Que Significa para Portugal a Mega-Aposta da Oracle na Cloud
Larry Ellison, cofundador e diretor técnico da Oracle Foto Getty Images

A gigante tecnológica americana prepara o maior financiamento da sua história para expandir infraestruturas de inteligência artificial. E Portugal está bem posicionado para beneficiar desta vaga.


Em tempos de incerteza nos mercados tecnológicos — com as ações da Nvidia a recuarem após o choque DeepSeek e os investidores a questionarem os retornos da inteligência artificial —, a Oracle acaba de fazer uma aposta monumental: entre 45 e 50 mil milhões de dólares em financiamento durante 2026, através de uma combinação de dívida e emissão de ações, para expandir a sua infraestrutura cloud.

O dinheiro destina-se a construir capacidade adicional para satisfazer a procura contratada pelos maiores clientes da Oracle Cloud Infrastructure, incluindo a AMD, Meta, Nvidia, OpenAI, TikTok e xAI — um who's who das empresas que estão a definir o futuro da computação. Trata-se de um dos maiores esforços de captação de capital da história da Oracle.

O anúncio não foi recebido com entusiasmo imediato pelos mercados. As ações da Oracle caíram cerca de 4% na abertura de segunda-feira, com os investidores preocupados com o aumento da dívida e a potencial diluição acionista. Desde o seu máximo histórico em setembro de 2025, a cotação já perdeu cerca de 50% do seu valor, eliminando aproximadamente 460 mil milhões de dólares em capitalização bolsista.

A Lógica por Detrás do Risco

Porque arrisca a Oracle tanto capital num momento de incerteza? A resposta está nos contratos já assinados. A empresa tem serviços cloud contratados no valor de 455 mil milhões de dólares que ainda não foram entregues — um backlog que excede a capacidade atual dos seus centros de dados.

No segundo trimestre fiscal, as receitas de infraestrutura cloud cresceram 68% para 4,1 mil milhões de dólares. A Oracle opera atualmente 147 regiões cloud, com mais 64 em desenvolvimento, e adicionou quase 400 megawatts de capacidade só no último trimestre.

Larry Ellison, presidente e diretor tecnológico da Oracle, defendeu que a empresa está a captar fundos para responder a procura contratada — não especulativa — dos seus maiores clientes. É uma distinção importante: a Oracle não está a apostar no futuro; está a tentar cumprir compromissos já assumidos.

O Modelo de Financiamento

A estratégia divide-se em duas componentes: aproximadamente metade através de emissões de capital (incluindo títulos preferenciais convertíveis e um programa de venda de ações no mercado até 20 mil milhões de dólares) e a outra metade através de obrigações sénior sem garantia, a emitir no início de 2026.

A Oracle sublinha que estas serão as únicas obrigações que emitirá durante o ano de 2026 — uma tentativa de tranquilizar os mercados de que o endividamento, embora significativo, será contido. A emissão de obrigações, que arrancou esta segunda-feira, deverá situar-se entre 20 e 25 mil milhões de dólares, segundo fontes citadas pela Bloomberg.

"Emitir capital ajudaria a enviar uma mensagem ao mercado de que a Oracle leva a sério a manutenção da sua notação de dívida de grau de investimento."

— John DiFucci, analista da Guggenheim

A Visão Cética

Nem todos estão convencidos. O mercado de dívida pode não ter apetite para tanto investimento da Oracle, dado os compromissos existentes e a evolução dos credit default swaps da empresa, argumenta Gil Luria, analista da D.A. Davidson. A emissão de ações também pode pressionar a cotação.

Segundo dados compilados pela Bloomberg, o cash flow da Oracle passou a negativo devido aos investimentos em centros de dados de IA — e espera-se que permaneça assim até 2030. É uma aposta de longo prazo que exige paciência dos investidores.

Mais preocupante ainda: em janeiro de 2026, um grupo de obrigacionistas apresentou uma ação coletiva alegando divulgação insuficiente sobre as necessidades futuras de financiamento relacionadas com a expansão de infraestruturas. É um sinal de que nem todos os detentores de dívida estão confortáveis com a estratégia.

Portugal na Rota da Infraestrutura Global

E que relevância tem isto para Portugal? Mais do que poderia parecer à primeira vista.

O país está a emergir como um hub europeu de infraestruturas digitais, beneficiando de uma combinação rara de fatores: 87,4% da eletricidade gerada em Portugal em 2024 proveio de fontes renováveis, tornando-o uma das redes mais verdes da Europa; localização geográfica estratégica na interseção de cabos submarinos que ligam a Europa às Américas e a África; e um ecossistema regulatório favorável ao investimento.

Em novembro de 2025, a Microsoft anunciou um investimento de 10 mil milhões de dólares num hub de centros de dados em Sines, um dos maiores compromissos de infraestrutura da empresa na Europa. O projeto, desenvolvido em parceria com a Start Campus e a Nscale, integrará aproximadamente 12.600 GPUs Nvidia de última geração para alimentar cargas de trabalho de inteligência artificial.

O SINES Data Campus, quando concluído, será o primeiro campus de escala gigawatt da Europa — 1,2 GW de capacidade distribuídos por seis edifícios, alimentados integralmente por energia renovável e utilizando tecnologia de arrefecimento por água do mar para atingir uma eficiência energética (PUE) de 1,1. O investimento total do campus deverá ultrapassar os 8,5 mil milhões de euros.

A Google também está a investir nos Açores, com planos para instalar um cabo submarino transatlântico que ligará os Estados Unidos, as Bermudas, São Miguel e Sines, além de um centro de dados na ilha de São Miguel.

Porque é que a Energia Verde Muda Tudo

Num momento em que os centros de dados de inteligência artificial consomem quantidades extraordinárias de eletricidade, Portugal atingiu um marco histórico em 2024: as fontes renováveis representaram 71% do consumo de eletricidade do país, com uma produção de 36,7 terawatt-hora — o nível mais elevado alguma vez registado no sistema elétrico nacional.

Em 2025, o recorde foi superado: a produção renovável atingiu 37 TWh, suficiente para cobrir 68% da procura nacional. Em fevereiro de 2025, 81,2% da eletricidade gerada em Portugal proveio de fontes renováveis, colocando o país apenas atrás da Noruega e da Dinamarca em termos de participação de energia limpa no mix elétrico europeu.

Esta abundância de energia verde é precisamente o que as grandes tecnológicas procuram. A Oracle, a Microsoft, a Google e a Meta têm compromissos de neutralidade carbónica que tornam essencial a localização dos seus centros de dados em regiões com redes elétricas limpas. Portugal oferece isso — e muito mais.

SINES DC Campus Master Plan. Fonte: Data Center Frontier

O SINES DC está estrategicamente posicionado como hub de conectividade global, beneficiando da posição geográfica única de Portugal — virado para o Atlântico e sem intersetar as zonas do Mar Vermelho ou da Rússia, onde os cabos submarinos de fibra ótica enfrentam ameaças de atos de guerra e terrorismo.

O Impacto Económico

Só o projeto da Start Campus em Sines já criou 700 empregos na construção e deverá suportar aproximadamente 9.000 postos de trabalho quando estiver concluído. O novo centro tecnológico do Grupo CTS em Viana do Castelo, com mais de 21 mil metros quadrados, deverá criar 500 empregos diretos — apenas o primeiro passo de uma estratégia que visa gerar mais de dois mil postos de trabalho no país até ao final da década.

"Este é mais um investimento estruturante para a economia portuguesa, que ajuda a colocar Portugal numa posição estratégica na economia de dados. É um investimento profundamente comprometido com a sustentabilidade, que trará mais empregos qualificados, diversificará a atividade económica na região e contribuirá para a construção de um ecossistema digital de longo prazo."

— Pedro Reis, Ministro da Economia

Investimentos em Centros de Dados em Portugal

Fonte: The Portugal News, Data Centre Magazine, DC Pulse

O Que Significa para o Futuro

A mega-captação da Oracle não é um caso isolado. Vem no contexto de uma vaga mais ampla de expansão de hiperescala na Europa, com a Google, Amazon e Oracle também a aumentarem a sua capacidade regional de centros de dados para IA.

Portugal está a posicionar-se para captar uma fatia significativa deste investimento. O mercado português de centros de dados deverá atingir 1,3 mil milhões de dólares até 2029, com uma taxa de crescimento anual de 6,52%. Mas os números podem revelar-se conservadores se os grandes projetos em curso atraírem investimentos adicionais.

A posição geográfica estratégica de Portugal permite-lhe funcionar como hub central para receção, processamento e transmissão de dados, ligando múltiplos continentes. Esta ambição — liderar a conectividade digital e o avanço tecnológico — está a materializar-se em projetos concretos em Sines, Lisboa e agora também nas ilhas.

Quando Larry Ellison decide mobilizar 50 mil milhões de dólares para expandir a nuvem da Oracle, está a validar uma tese que beneficia diretamente países como Portugal: a de que a infraestrutura física da inteligência artificial será tão valiosa como os algoritmos que nela correm. E que essa infraestrutura precisa de energia limpa, conectividade global e estabilidade política.

Portugal oferece as três.

Nota Editorial
Este artigo foi produzido pela equipa editorial do Owner.pt, que não recebe financiamento das empresas ou entidades mencionadas. A Oracle, Microsoft, Start Campus e demais empresas referidas têm direito de resposta que será publicado integralmente se solicitado.
Para contactos: editorial@owner.pt